quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Minh'alma e eu.

Pois devo ser o que chamam por ai de chata. Sou. Devo ser. Sei que sou. Chata. Irritante. E tudo o mais. De ruim. É fácil, aos olhos alheios. Daí deve da pra ver melhor. É o que dizem! Quem está de fora consegue ver melhor. Eu até me esforço para me ver a distância. Sério. As vezes até torço pra minh'alma sair do corpo. Na boa, acho que se ela saísse pra passear um pouco me aliviaria. Bom, a verdade é que que minh'alma não gosta muito de sair para passear. Presa, ela prefere ser inquietante, aqui em mim. As vezes acho que sou uma espécie de crustáceo, pois minh'alma é tão grande que não cabe mais no corpo que habita. Tenho que trocar a carcaça. Onde consigo uma em tamanho maior?Sou uma espécie de crustáceo. Sei que sou. Devo ser. Assim, por pura questão de lógica que digo isso. A lógica dos crustáceos que crescem e que, pra sobreviver, tem que mudar de corpo. É isso! Não sobreviverei muito tempo habitando esse corpo. Ou eu tenho experiências extra corpóreas, ou liberto minh'alma desse corpo e ela vai, por ai, procurar habitar algo que lhe sirva. Só sei que aqui não cabe. Já não cabe mais. Tá apertado. Incomodando.

sábado, 18 de agosto de 2012

sabia!

Sempre soube que há coisas que precisam ser ditas. Sempre deixou de falar. Por medo, talvez. Provavelmente por não saber como dizer. Sempre fora um apaixonado pelas palavras. Dessas simples, que se usa no cotidiano, que qualquer alfabetizado seria capaz de entender. Palavras de pronuncia difícil e escrita complicada nunca tiveram sua admiração. Tinha respeito por elas, porque toda e qualquer palavra merece respeito. Mas admirar mesmo admirava as simples. Pensava nisso enquanto bebia uma xícara de café. Recém feito. Às duas da manhã. Dali há pouco o sol nasceria, sabia disso. Parou de fumar faz tempo; seis meses? Talvez dois ou três, no máximo. Sempre soube que há coisas que parecem ter mais tempo do que realmente tem. Se não fosse ainda o café - pensou. Pensamento é coisa que não tem respeito, sempre soube. Sem pedir vem. De tão inconvenientes que são já vão entrando. São duas da manhã, seus espaçosos! E ainda reclamam que o café além de pouco é forte demais, amargo demais. Café só prestava assim, sempre soube. Ainda mais quando se deixa de fumar... De invasão em invasão os pensamentos iam se instalando e para não ser tomado por todo aquele turbilhão esforçou-se para pensar nas palavras, nas simples. Simplicidade é uma palavra bonita. Pensou que o infinito poderia significar a união do papel e da caneta. Há coisas que precisam ser ditas! A folha em branco, a caneta sem tampa, a xícara de café já quase no fim e o cinzeiro limpo há dois ou três meses, no máximo, todos sabiam. Que medo sem fim era esse de dizer o que precisava ser dito? Sabia o que dizer, sempre soube. Iludia-se achando que haveria forma melhor. Sempre soube que há coisas que precisam ser ditas, da maneira mais simples. Olhou para o cinzeiro. Um cigarro resolveria. Olhou para a xícara de café, já cheia, pela segunda vez. Olhou para a folha de papel, branca. A caneta, preta. De olhos fechados olhou para si. Homem, coragem! Ecoava pelo corpo... - agem, agem, agem.

"Marina,

você é para mim como um daqueles poemas que lemos, não entendemos, mas nos emocionamos, pois sabemos que ali está escrito algo que de tão íntimo pouco se conhece. Você, que muitas vezes parece reflexo, é irreconhecível. É insuportável. Não você. Insuportável olhar para ti e ver-me. Ver-me como eu gostaria de ser... não sou.


[...]

Continua.


O sol nasceu. É hora de dormir.